Categoria resenha

O Cão Mentecapto é um retrato de violências, incertezas e descobertas, traduzido em estado de turbulência 

A obra encerra a Trilogia Turbulência. Foto: Divulgação.

Livro: O Cão Mentecapto.

Autor: Otavio Linhares.

Número de Páginas: 128.

Editora: Encrenca.

Preço: R$36,00.

A raiva e a revolta. A necessidade de tomar as rédeas da própria vida, de encontrar seu lugar no mundo e de ser notado. A excitação e o deslumbramento sexual. Todos esses sentimentos que afloram na juventude aparecem puros e pungentes em O “Cão Mentecapto” (Encrenca, 2017), terceiro livro de Otavio Linhares.

A obra faz parte da Trilogia da Turbulência, como a chama o escritor Luiz Felipe Leprevost, iniciada em 2013 com “Pancrácio” e seguida pelo “Esculpidor de Nuvens”, em 2015. Essa turbulência toma forma mais concreta em “O Cão”, pois nos 16 contos acompanhamos momentos de violência e descobertas, vistas e vividas a flor da pele por adolescentes.

Narrado do ponto de vista desses jovens, a falta de vírgulas e letras maiúsculas parece reforçar essa agitação, marcada por um fluxo incessante de informações. Em diversos momentos os personagens se perdem o foco em meio a divagações, que só percebemos que é inútil – ou não – depois de se passar uns 10 minutos com a porta da geladeira escancarada.

“[…] é como se viver em sociedade fosse um eterno reclamar de coisas senão não é sociedade família escola nem nenhum tipo de aglomeração de gente. Turba em polvorosa. Bacana essa palavra turba. Lembra burca. Polvorosa também é legal. Lembra pólvora. Burca e pólvora. Fecho a geladeira” – página 17.

E nessa brincadeira, não é só o narrador que se perde. Esses elementos, ou a falta deles, dão personalidade ao texto, porém complicam a leitura. É um livro para ser lido com atenção – não que existam livro que não necessitem de atenção, mas mais de uma vez foi preciso voltar em algum texto para garantir que tudo tinha sido entendido.

Outro ponto marcante da obra, são os momentos de grande violência como em “Cães Famintos”, que o jovem presencia o assassinato de um colega após um espancamento que “pintou o tapete de vermelho”, ou em “Linda demais” em que a filha mata o pai com uma navalha de barbear e “o sangue fica jorrando e encharcando a sala inteira”, são relatados com certa apatia.

Essa insensibilidade dos personagens frente as adversidades tornam o impacto dos fatos narrados mais fortes. O leitor se choca duplamente: pela descrição da cena e pela passividade com que o jovem lida com as situações. Em alguns momentos essa ingenuidade frente as questões tão sérias parecem surreais demais e contrastam com a descrição de cenas que fazem parte do cotidiano de muitos jovens.

Essa relação com o real é outa ferramenta muito bem utilizada por Linhares, para cativar o leitor. Muitas passagens geram uma identificação muito forte com as memórias do tempo do colégio. Um tanto clichês, mas não menos verossímeis. As festinhas da piazada, os relacionamentos entre os populares, garotas bonitas e os desajustados, a coca com fandangos de presunto, combinação que devo concordar com o autor é “obra da criação”, são lembranças de uma época que não volta mais.

O Cão Mentecapto usa e abusa de uma linguagem desbocada e sem censura que caracteriza a juventude rebelde e transviada. Em 127 páginas Linhares nos faz rir, chocar e rememorar um universo complexo, que perde o seu brilhantismo com o olhar do adulto.

O fato de despir-se do que não presta e não serve mais, narrado no primeiro conto que dá nome ao livro, sobrando apenas “cu e pau”, fonte dos “maiores prazeres”, parece prenunciar ao leitor de que o modo de vida, escolhido e iniciado na juventude, não tem volta. E, com a imprecisão do futuro, só o que sobra é o presente.

Otavio Linhares é dono do selo editorial Encrenca. Foto: Reprodução.

Otavio Linhares

Formado em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Linhares é sócio da empresa 4Beans, especializada em microtorrefação de cafés especiais. Também criou o selo editorial Encrenca – Literatura de Invenção, da editora Arte & Letra, da qual também é sócio. Músico e dramaturgo, se arriscou na literatura, publicando seu primeiro livro em 2013.

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