Categoria reportagem

Um dos maiores contistas do Brasil, o escritor paranaense continua produzindo aos seus 92 anos

Uma das primeiras publicações de Dalton Trevisan em formato de cordel. Foto Giovanna Menezes.

Vasculhando os pertences de minha avó, encontro no fundo de uma gaveta uma publicação, amarelada e meio carcomida por cupins. Para minha surpresa, aquele pequeno retângulo manchado, nada mais era do que uma das “edições de cordel” de Dalton Trevisan, 92 anos, que no início da carreira publicava as próprias obras. As páginas datam de 1953 e contam com ilustrações de Poty Lazzarotto.

Ter uma peça dessas entre os dedos é uma raridade e de certa forma materializam para mim a pessoa que Trevisan é hoje. Não o mais visto, mas com certeza um dos mais conhecidos escritores paranaenses, se destaca também no cenário nacional, no gênero do conto, do qual é mestre. Iniciou a carreira há mais de 70 anos e continua produzindo. Suas últimas obras foram publicadas pela editora Record, com a qual troca cartas manuscritas, por meio da Livraria do Chain.

Eternizado pelo título de “O Vampiro de Curitiba”, que dá nome a uma de suas obras, é conhecido por ser arredio e não conceder entrevistas. Segundo o escritor e jornalista Luiz Cláudio Soares de Oliveira, 60 anos, Trevisan nunca foi muito amigo da imprensa. “Mas, mais do que isso, ele desde muito jovem preferiu ser reconhecido pela sua obra e não por quem é”, afirma.

Infelizmente, o tiro saiu pela culatra e, em grande parte, a lembrança do autor no imaginário popular vem desse comportamento. Oliveira destaca que, essa atitude só foi possível, pois Trevisan pertencia a uma família de posses e que o financiava, ao contrário seria pouco provável que ele continuasse vivendo apenas dos seus livros, sem participar do circuito literário.

A trajetória de Trevisan começou na adolescência quando editou o jornal “O Tingui”, durante o ginásio. Mais ou menos nesse período publicou seu primeiro livro, até então de poesia, “Sonata ao Luar” (1945), o qual renegou junto com “Sete Anos de Pastor” (1948).

Mas foi a partir dos 21 anos, quando criou a revista Joaquim, “em homenagem a todos os Joaquins do Brasil”, que seu nome começaria a ganhar destaque. Oliveira publicou o livro “Dalton Trevisan [em] contra o paranismo” (2009), fruto de sua dissertação de mestrado. No texto, o escritor reconta a história de Trevisan a partir da criação do periódico.

Com um discurso político e ideológico bastante forte, a revista era uma ação de rebeldia ao modelo cultural que imperava no Paraná, até a metade do século XX. “Trevisan atacava duramente os expoentes culturais da época, buscando destruir os mitos locais, para abrir espaço para uma nova geração”, conta o jornalista.

Trevisan procurou se cercar de importantes personalidades da época no meio cultural, que apresentavam um caráter mais modernista frente aos movimentos simbolista e paranista que ainda predominavam no estado. Antonio Cândido, Mário de Andrade, Otto Maria Carpeaux, Carlos Drummond de Andrade e os ilustradores Poty Lazzarotto, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres, eram algumas das pessoas que contribuíram para a Joaquim.

Apesar do sucesso, sem motivo aparente o contista deu fim à revista. A partir daí começa a se dedicar exclusivamente à produção literária. Ao longo dos anos publicou mais de 50 livros. Além das poesias da juventude, as quais renegou, escreveu somente um romance, “A Polaquinha” (1985). O resto de sua obra são contos.

Mesmo Curitiba sendo personagem presentíssima em sua obra, sua escrita é universal e atemporal. Recria situações do cotidiano e costumes, por meio de uma linguagem clara e direta, mas não menos profunda.

Em 2014, lançou seu último livro “O Beijo na Nuca”. Ao longo da carreira publicou quase que um livro ao ano. Faz também muitos relançamentos, mas em cada edição há sempre uma surpresa para os observadores atentos. Muda uma palavrinha ali, outra aqui, renega um texto ou o reescreve completamente.

Sua obra está em constante mutação. E isso mais do que qualquer outra coisa, reafirma o autor que, apesar da idade e reclusão, se mantem atual e fiel às suas crenças.

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