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Realizando o sonho da infância, Luís Henrique Pellanda se firma na crônica

A literatura sempre teve um papel fundamental na vida do cronista Luís Henrique Pellanda. Foto: Giovanna Menezes.

A vocação para a literatura já se manifestava na infância. Os pais, atentos às peculiaridades do jovem Luís, lhe deram uns dos melhores presentes: uma assinatura do Círculo do Livro, com a qual todo mês ele podia escolher um livro. Aí começaria sua trajetória literária, em meio as crônicas de Luis Fernando Verissimo, Stanislau Ponte Preta e Rubem Braga, que devorava com entusiasmo.

O sonho de ser escritor começava a tomar forma nas brincadeiras de criança. Escrever histórias em quadrinhos e pequenos contos era sua diversão. Mas, apesar de toda a vontade, acreditava que nunca conseguiria realizar suas aspirações. “Curitiba parecia ser uma terra onde autores não existiam.”

Para a sorte de Luís Henrique Pellanda, o universo resolveu conspirar ao seu favor. Com apenas 11 anos, em uma tarde na casa de uma das tias, revirando as coisas das primas encontrou algo que renovaria suas esperanças. Estava ali, como quem não quer nada, mal sabendo que estava mudando a vida de um jovem, “O Vampiro de Curitiba”, obra do curitibano Dalton Trevisan.

“Quando eu vejo o livro me assusto. Como assim, um livro sobre Curitiba, escrito por um conterrâneo, sobre um Vampiro (??) e ainda com vários elogios mas orelhas do livro? Não dá para acreditar.” O choque logo é superado e o livro segue o caminho natural em suas mãos. Nesse momento o sonho volta a tomar força.

“Detetive à Deriva” é o último lançamento do autor pela Arquipélago Editorial. Foto: Divulgação.

A adolescência é marcada pela atividade da escrita, a qual deis desse período já levava muito a sério. Com 15 anos resolve cursar Jornalismo, na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), pois lhe parecia a única profissão possível. A profissão abriu portas para que Pellanda tivesse seus primeiros contatos com escritores e pessoas do meio. Chegou até mesmo a ser subeditor do jornal Rascunho, um dos principais jornais literários do país.

E nessa rotina chegou a se contentar em ser apenas um leitor. “Afinal, a melhor coisa é ser um leitor”, afirma. Foi quando trabalhou no jornal Primeira Hora, que já não mais existe, no qual foi encarregado de fazer um levantamento cultural nas áreas de invasão e favelas de Curitiba. Foi o único repórter a ir além dos crimes e delitos, que costumam ser associados

Essa experiência foi tão significativa que hoje é parte integrante de quem Pellanda é e do que pretende com o seu trabalho. Considera que é seu dever, uma vez que foi agraciado com o privilégio de trabalhar com a literatura, fazer o que for possível para permitir que outras pessoas tenham acesso às possibilidades infinitas que um livro pode oferecer.

Mas a vontade de escrever consegue fugir do inconsciente e dessa vez toma a frente. E finalmente, aos 34 anos, lança seu primeiro e único, até então, livro de contos “O Macaco Ornamental” (Bertrand, 2009), com o qual logo de cara conquistou o 2º lugar no Prêmio Clarice Lispector de 2010. Apesar do reconhecimento, a editora lhe cobrava um romance, o que não lhe interessava.

Pellanda é um escritor de histórias curtas. Mas se engana quem acha que a brevidade dos relatos torna o trabalho e leitura mais fáceis. “A crônica é um caldo concentrado. Ela é carregada de sentido e significados, além de exigir do escritor um cuidado especial com a linguagem”, explica.

“Perambulando com inteligência”

Essa expressão define em certa medida o trabalho de Pellanda. É caminhando pelas ruas do centro de Curitiba, atento a tudo e todos, que um simples ir e vir vir matéria prima para uma crônica. É no burburinho da calçada que o curitibano reconstrói a capital que cresce e se deteriora em um piscar de olhos.

Suas primeiras crônicas foram publicadas no blog Vida Breve, que criou junto com o amigo, também jornalista e escritor, Rogério Pereira, dono do Rascunho. Logo de início já tinha 30 mil leitores. Resolveu investir nesse estilo e por algum tempo experimentou diversas formas de escrever até que encontrou o seu personagem. Como não há ninguém melhor do que o próprio Pellanda para explicar como esse personagem surgiu, lhe dou a voz:

Há dez anos Pellanda vive esse personagem que é protagonista de seus três livros de crônicas, “Nós Passaremos em Branco” (Arquipélago, 2011), “Asa de Sereia” (Arquipélago, 2013) e seu último lançamento “Detetive à Deriva” (Arquipélago, 2016).

Mesmo cada texto sendo único, entre as obras há uma ligação intrínseca. “Se você ler a sequência, você vai ver não só o personagem envelhecendo dez anos, como ele tendo outra filha, mudando de cenário, percebendo novos discursos crescerem nas ruas, tentando traduzir tudo isso em literatura. ”

Assim segue o Detetive à Deriva, pelos entroncamentos da cidade, buscando com seu olhar desvendar um mundo em constante transformação.

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