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Priscila Prado mostra que viver de poesia envolve muito trabalho duro

Priscila Prado crê no poder transformador da poesia. Foto: Giovanna Menezes.

No pátio central da Biblioteca Pública do Paraná (BPP), a poeta Priscila Prado recepcionava os curiosos em seu estande da Primeira Festa Literária da Biblioteca, com uma caixinha recheada de poemas. Cada um que parava levava para casa uma mensagem da autora. Comigo não poderia ser exceção e retirei a mensagem que dizia o seguinte:

Por mais que pareça piegas, a verdade (ou não, se você for cético a ponto de não acreditar na veracidade desta humilde repórter) é que de fato a mensagem veio no momento preciso. Alguns segundos depois de absorver e interiorizar o recado, fui dar início a entrevista. A reflexão terá que ficar para mais tarde.

Foi só ao fim da entrevista que me dei conta de que a brevidade da cena da caixinha de poemas, sutilmente escondia um grande significado da trajetória de Priscila. Ela conta que uma das bandeiras que hasteia na ponta de seu lápis é a da “Militância Poética”, que é marca intrínseca de seu trabalho. “Eu penso mesmo que a partir da palavra, a gente pode criar um mundo melhor. ”

E é na poesia, que por coincidência quer dizer “criar”, que Priscila busca transformar o mundo ao seu redor. Tão importante é isso, que ela faz questão de frisar que quem a ensinou a pensar dessa forma foi o também poeta Jean Foucault, um francês que morou por um tempo em Curitiba.

Esse é um dos, e o principal, projetos de vida da autora. Em segundo lugar, mas não menos importante, é o retorno financeiro, “pois a gente também precisa viver”, destaca Priscila, que aprendeu a viver na linha divisória entre o idealismo e o real. Foi assim que, mesmo sendo uma leitora voraz e ter começado a escrever versos desde a infância, profissionalmente foi buscar outros caminhos.

Formada em Direito pela Universidade Federal do Paraná, a carioca de nascimento se apaixonou pelo exercício da aplicação das leis. Mas nem todo esse amor conseguiu afastá-la do desejo de escrever, que estava à espreita a cada esquina. Em 2000 saiu do seu trabalho na Caixa Econômica Federal e aí começaria uma nova fase.

Em uma reportagem um escritor – cujo nome ela não recorda – foi questionado sobre o porquê de ele escrever. Irreverente respondeu “É algo que não posso evitar.” Isso levou Priscila a pensar no que ela não pode evitar. A resposta que já estava lá, mas sobreposta por inseguranças e preconceitos alheios, surge no mesmo instante: “Não posso evitar a poesia e a escrita”, afirma.

Com a decisão tomada, Priscila começa a produzir. Chegou a enviar um material para editoras intitulado “Encontros Desconcertantes”. Como não obteve resposta, guardou na gaveta este projeto e, em 2005, lançou de forma independente seu primeiro livro “A Qualquer Momento Agora”, que foca na necessidade de se viver o presente.

Mesmo aí, uma certa insegurança permanecia. A falta de coragem ou até mesmo uma certa preguiça de se arriscar, viraram matéria-prima para seu segundo livro, voltado para o público infantil. “Preguiça, Coragem e Outros Bichos” (2012) oferece uma experiência compartilhada com o leitor. Diversas páginas são dedicadas para que a criança, pinte, ilustre ou até mesmo escreva um poema, e aprenda que não é preciso ter medo da poesia.

A ideia de fazer uma obra para crianças surgiu após duas amigas, que são professoras, comentarem que trabalhavam as suas poesias em sala de aula, com crianças da faixa etária dos 8 aos 10 anos. Após um momento de estranheza, ao pensar que as pessoas achavam seus versos infantis, Priscila resolveu abraçar a ideia. Para sua surpresa, a obra acabou sendo finalista do Prêmio Jabuti 2012, na categoria paradidático.

Mesmo não ganhando, a felicidade foi enorme. “A produção do livro foi totalmente independente, nem editora tinha, então isso diz muito da qualidade do trabalho que foi feito. Ser finalista do Jabuti significou o reconhecimento do trabalho e dedicação de toda a equipe.”

“Preguiça, Coragem e Outros Bichos” ficou em 4º lugar entre os 10 finalistas da categoria. Foto: Giovanna Menezes.

Tudo é uma questão de perseverança, trabalho duro e a crença em seu trabalho. A sua rotina vai muito além da mera escrita. Assim como a maioria dos autores que tenta sobreviver apenas desse ofício ingrato, remuneradamente falando, Priscila se divide entre a produção, palestras, feiras e eventos literários. “Sou escritora, financeiro, marketing, vendedora e o que mais preciso for”, brinca.

Priscila ainda carrega no currículo mais duas obras, “No Olho do Paradoxo” (Insight, 2015) e “Alas, Pétalas e Labaredas” (Coletivo Marianas, 2016). Além dessas obras, ela retomou seu primeiro projeto, “Encontros Desconcertantes”, que recentemente foi aprovado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura e tem previsão de lançamento para o ano que vem.

Otimista com o futuro, Priscila só pensa em continuar escrevendo. A inspiração vem da observação da natureza e das relações pessoas, traduzidas por um olhar sensível e atento, em formato de verso.

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