Categoria reportagem

Nas duas últimas eleições da Academia Paranaense de Letras, as vencedoras foram mulheres

Luci Collin foi a última acadêmica a tomar posse da Academia. Foto: Reprodução.

Fruto do movimento feminista e do empoderamento da mulher na sociedade, nos últimos anos cada vez mais tem crescido a participação feminina nos mais diversos âmbitos. Reflexo dessa movimentação pode ser visto na Academia Paranaense de Letras (APL), que hoje tem oito das 40 cadeiras ocupadas por mulheres.

Apesar de a quantidade ser pequena em consideração à participação masculina, se considerarmos que a posição é vitalícia e que, nas últimas eleições, mesmo com a forte concorrência, duas mulheres foram eleitas, fica perceptível uma abertura maior a participação feminina. As últimas escritoras aceitas para a APL foram Luci Collin, que ocupa a cadeira 32, e Etel Frota, eleita no último dia 11 para a cadeira 22.

Para Luci, o fato de as mulheres ocuparem menos postos de destaque na sociedade, tem um fundo histórico e cultural que não deve ser entendido como uma “falha” específica de uma ou outra entidade. “A discriminação das mulheres é um problema de séculos e séculos que gradualmente vai se corrigindo. O equilíbrio, embora demande tempo e firmeza de perspectivas, virá”, afirma.

O atual presidente da APL, Ernani Buchmann, cadeira 2, conta que só na década de 1970 mulheres passaram a ser aceitas na Academia, seguindo a abertura feita pela Academia Brasileira de Letras. Mas isso só iria acontecer de fato 21 anos depois.

Apesar de a escolha óbvia na época ser a poeta Helena Kolody (1912-2004), considerada a “mãe de todos os escritores”, ela se recusou em ser a primeira mulher a ocupar uma cadeira. Foi então convidada a escritora Pompília Lopes dos Santos (1900-1993) a ocupar a cadeira 37, que por coincidência havia sido ocupada anteriormente por seu marido, Dario Nogueira dos Santos (1899-1980).

Pompília foi seguida por Helena, que um ano depois foi eleita para a cadeira 28. Desde então, 13 mulheres já passaram pela APL. Entre elas, também fizeram parte Flora Munhoz da Rocha (1911-2015), Adélia Maria Woellner (1940), Chloris Casagrande Justen (1923), Marta Morais da Costa (1945), Leonilda Hilgenberg Justus (1923-2012), Hellê Vellozo Fernandes (1925-2008) e Clotilde de Lourdes Branco Germiniani (1938).

Para Buchmann, a APL terá cada vez mais mulheres. “Não digo que chegue a ser a maioria na Academia, porque tem também muito homem escrevendo. Mas com toda certeza vão ter uma participação maior.”

A Academia Paranaense de Letras

A APL foi fundada em 26 de setembro de 1936. Ela sucedeu a antiga Academia de Letras do Paraná, criada em 1922, que foi dissolvida por motivos políticos e brigas internas. Seguindo o modelo francês, a Academia tem 40 cadeiras, que são ocupadas por escritores e expoentes da vida cultural paranaense.

“Evidentemente que os escritores são a maioria. Mas muitos deles vêm de outras áreas, porque no Brasil são poucos que conseguem viver só da literatura. Somos escritores por vocação, não é uma atividade profissional”, afirma Buchamann, que apesar de ter nascido em Joinville, Santa Catarina, construiu sua carreira em Curitiba.

Assim como ele, muitos dos integrantes não nasceram no Paraná. Isso acontece por causa dos critérios estabelecidos pelo regimento da APL. Para integrar a Academia é preciso ter ao menos uma obra publicada e ter nascido no Paraná, ou comprovar mais de dez anos de residência no Estado. Esses são os requisitos básicos.

Além disso, a cada eleição uma Comissão de Avaliação de Elegibilidade, composta por três membros, avalia os currículos e obras dos concorrentes. O parecer dessa comissão é encaminhado para o plenário, que vota de forma secreta em um dos candidatos. Por esses meios, os integrantes garantem que os melhores entrem na APL. “Todos têm uma carreira vitoriosa. Pois chegar a Academia seria o topo da sua carreira. O reconhecimento do trabalho que você fez ao longo da vida”, afirma Buchmann.

A Academia também encabeça alguns projetos, como é caso do “Academia Vai à Escola”, que virou lei em 2011. Essa ideia foi uma iniciativa da Chloris Casagrande Justen, ex-presidente da APL, que sempre se preocupou com o ensino da história do Paraná nas escolas.

Apesar de ter virado lei, ela nunca foi regulamentada e por isso nunca foi aplicada. Por causa das dificuldades de integrar mais esse conteúdo dentro da grade curricular dos colégios, o Sesc firmou convênio junto às secretarias municipais e estadual de educação, para ministrar aulas as aulas de história do Paraná no contraturno escolar. O projeto deve ter início em março de 2018.

Além disso, por meio de seus membros, a APL realiza diversas atividades para discutir e fomentar o debate sobre cultura e literatura. Os acadêmicos participam de muitas palestras e oficinas.

Atualmente, a APL está sem sede fixa, pois o local que ela deveria ocupar, o prédio Belvedere, localizado na Praça João Cândido passa por restauração.  A previsão é que o espaço esteja pronto até o fim do ano que vem. Enquanto isso, a biblioteca da Academia fica disponível no Sesc da Esquina.

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