Categoria perfil

Finalista de dois prêmios literários, Miguel Sanches Neto é um dos autores contemporâneos de maior destaque no Paraná.

“Para ter o livro vale tudo”, até mesmo roubar, afirma o escritor Miguel Sanches Neto, 52 anos. Filho de uma família de agricultores da cidade de Bela Vista do Paraíso, interior do Paraná, via na literatura um modo de escapar da lida no campo. O dinheiro para comprar as obras tão queridas era pouco. Das duas uma: emprestava da Biblioteca Pública ou, caso o desejo de telas fosse muito forte, roubava-as sem nenhum remorso. 

“Os roubos como ato de amor”, como assim os define Miguel, e os pequenos golpes são relembrados com bom humor. Lima Barreto foi um dos autores que teve seu livro enfiado dentro das calças de Miguel, em uma ação discreta em uma biblioteca.  

A livraria Chain, em frente a reitoria da Universidade Federal do Paraná, também foi alvo dos pequenos golpes. “Isso era na época do Presidente Sarney, por causa da inflação. Depois de escolher o livro, eu o escondia atrás das prateleiras e voltava um mês depois para comprar. O preço caia em 40%. ” Sem provas, a atendente só empacotava os livros com a desconfiança no olhar. 

As digressões da juventude foram superadas e até mesmo perdoadas pelo próprio Chain. Com uma biblioteca particular com cerca de 70 m², Miguel se tornou um doador assíduo de livros para as bibliotecas. Essas e outras histórias são hoje inspiração para o romancista, ficcionista, contista, cronista e poeta. 

Miguel Sanches Neto já publicou 29 livros ao longo da carreira. Foto: Divulgação/ Companhia das Letras.

E não são só as vivências que estimulam o autor. Muito apaixonado por História, vê no passado do Paraná um campo fértil para sua criatividade, que costuma ser pouco explorado pelos outros escritores locais. “O Paraná é um estado cheio de histórias, que faltam ser traduzidas em literatura. ” Algumas delas são exploradas no livro “Um Amor Anarquista” (Record, 2005) e em seu último lançamento A Bíblia do Che (2016), que é finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria Melhor Romance do Ano, e do Prêmio Oceanos da Literatura em Língua Portuguesa. 

Além de escritor, Miguel também é professor e crítico literário. Doutor em Letras pela Unicamp, contribuiu para diversos veículos, entre eles, Folha de S. Paulo, Estadão, Gazeta do Povo e para a revista cultural Nicolau. Em 1991 lançou sua primeira obra, “Inscrições a Giz” (FCC). O livro de poesias já prenunciava o talento do escritor, que logo teve seu trabalho reconhecido com o prêmio de poesia Luis Delfino da Fundação Catarinense de Cultura. 

Nove anos depois iria se destacar de vez no cenário literário com seu primeiro romance “Chove Sobre Minha Infância” (Record, 2000). O livro demorou um mês para ser escrito, mas sua história demorou 100 anos para ser contada, afirma Miguel, para minha confusão. Para suprir as incertezas ele explica:

Apesar do tom autobiográfico, se trata de uma obra ficcional, que tem como alicerce as vivências do autor e, por isso demorou tão pouco tempo para ser escrita. Mandou o livro para cinco editoras por correio, obtendo apenas três respostas, sendo duas negativas, até que a última resolveu apostar em Miguel. “Lembro que me disseram que investiriam em mim para eu começar a dar lucro 10 anos depois. Era um momento muito propício para a ficção nacional. Já hoje, as editoras querem estrangeiros ou livro-lixo para venderem muito e de uma vez. ” 

Depois desse livro, não parou mais. Hoje são mais de 30 obras publicadas, dos mais variados gêneros. Vai do infantil ao ensaio, do poema a crônica. Mas, entre todos, o romance é seu preferido. “No interior do romance você pratica todos os gêneros. Eu digo que ele é um monstro com pele elástica, onde cabe tudo. ” 

Cada obra é única e para cada estilo o processo criativo e de produção é diferente. Mas todos partem de uma ferida, seja ela para o bem ou para o mal.  “Só escrevo quando algo me fere”, assim é o escritor que enxerga na literatura o poder de reumanizar o homem.  

Vê o bombardeamento diário da imprensa e da indústria do entretenimento, como o alimento da nossa crescente indiferença. Um dos tratamentos que receita é a leitura de textos literários.  “Ela nos coloca no lugar do outro e nos traz de volta a humanidade em nós. ”  

Modesto, diz estar longe do sucesso, característica que se estende à literatura brasileira em geral, completa. “O que consegui foi fixar o nome o suficiente para continuar tendo editoras que investem em mim. Isso para o escritor é tudo. Vivo de outras atividades, não preciso pagar as contas com o que a literatura rende. Escrevo como uma aposta para o futuro. ” 

Falando em futuro, um de seus sonhos é escrever sobre a Guerra do Contestado. Já encaminhou um projeto para o Itaú Cultural, com perspectiva de duração de três anos, trabalhando com mais seis pessoas. Tem receio de não conseguir, pois essa obra demanda muito esforço de pesquisa e trabalho em equipe.  

Mas enquanto um não anda, Miguel não fica parado e se dedica a outros projetos. O mais avançado é um romance escrito quando o autor morou em Braga, Portugal, entre 2015 e 2016. No último ano já rescreveu três vezes a obra, em versões totalmente distintas.  “O escritor não deve se contentar com o que se obtém. Deve sempre buscar melhorar o seu texto, melhorar-se como artista. ” 

Bate-papo com o escritor no Pilarzinho. Foto: Giovanna Menezes.

 A obra pelo autor 

No dia 20 de agosto, Miguel Sanches Neto participava de um bate-papo no Pilarzinho, como parte do projeto Mostra Literatura Paraná, que durante dois meses levou a literatura paranaense paras quatro bairros da periferia de Curitiba, entre eles Cidade Industrial de Curitiba (CIC), Uberaba, Butiatuvinha, Pilarzinho. 

Na pracinha ao lado da Paróquia São Marcos, lá por 20 horas, sentados em bancos de plástico, a plateia de pouco mais de 10 pessoas escutava atenta as palavras do autor, que contava um pouco sobre si e sobre seu trabalho. Sem demonstrar um pingo de cansaço, após dirigir 115 km, direto de Ponta Grossa até Curitiba, para a qual ia voltar ainda aquela noite, falava com entusiasmo. 

Para aqueles que não tiveram a oportunidade de ouvir o escritor, ficam aqui algumas palavras de Miguel Sanches Neto sobre suas obras. 

Um Amor Anarquista (Record, 2005)

Um pequeno grupo de italianos funda, em 1890, uma comunidade anarquista no Brasil – a Colônia Cecília. Crescendo de forma descontrolada, o grupo para por muitas privações na tentativa de garantir um nível de vida digno a todos, e isso sem obrigar ninguém a trabalhar. O incentivo governamental aos imigrantes ajudava na implantação da colônia, mas os problemas foram se acumulando. Um deles era de uma urgência incrível – a falta de mulheres dispostas a experimentar o amor livre, única forma de destruir o poder do pai de família. No centro deste modelo social, um idealista, o italiano Giovanni Rossi, autor de panfletos políticos. Como verdadeiro cientista, ele inocula nas próprias veias o remédio experimental, vivendo um caso de amor em que três homens compartilham publicamente a mesma mulher.

A Bíblia do Che (Record, 2016) 

Herói do romance “A primeira mulher”, o professor Carlos Eduardo viveu a última década em reclusão total. Morando no centro comercial de Curitiba, o professor quer distância das mulheres e dos criminosos que marcaram sua última aventura, e passa os dias entre o consultório abandonado de odontologia onde vive e uns poucos restaurantes nas redondezas. Sua paz é interrompida pela visita de um velho conhecido, um operador financeiro que quer contratá-lo para uma missão insólita: localizar um exemplar da Bíblia com anotações que Che Guevara teria feito durante uma passagem pelo Brasil. A história conta que, numa temporada clandestina em Curitiba, Che teria se disfarçado de padre e carregado uma Bíblia, em cujas margens fez supostos comentários.
Um dos grandes romancistas brasileiros em atividade, Miguel Sanches Neto faz do suspense e do mistério terreno fértil para uma reflexão sobre vida, morte, poder e arte.

Recommended Posts

Deixe um comentário

COMECE A DIGITAR E PRESSIONE ENTER PARA PESQUISA