Categoria reportagem

Criado em 2000, o jornal literário passou por diversas transformações e hoje chega a sua 210ª edição

Há 17 anos o jornalista e escritor Rogério Pereira resolveu criar um jornal literário, o Rascunho. Com um nome tão singelo, que exprime uma simplicidade longe de ser verdadeira, ninguém poderia imaginar que hoje esse seria um dos mais importantes veículos de comunicação brasileiros sobre literatura.

Pereira explica que essa fama se deve ao fato de o Rascunho ser um jornal de produção independente e por sempre ter abordado a literatura de uma forma generosa. Apostando na diversidade, da primeira até a 210º edição foram páginas e mais páginas recheadas com ensaios, críticas, resenhas, ilustrações, contos, poesias e crônicas, visando discutir e divulgar a literatura brasileira.

Começou como um periódico impresso de 48 páginas, passando para 32 atualmente. Em 2002 foi para o universo digital. Na página online, são republicadas algumas matérias do impresso e pequenas notícias sobre lançamentos, eventos e campanhas. O jornal pode ser assinado no site, por uma taxa anual de 90 reais. Para quem não pode pagar, todo final de mês a edição do mês anterior é disponibilizado em formato PDF de forma gratuita.

Dentro desse contexto, sua longevidade chama a atenção pois, ao longo da história do Paraná, diversos periódicos literários e culturais foram produzidos, mas nem mesmo a revista literária O Cenáculo (1895-1897), que teve um importante papel na difusão do movimento simbolista em território nacional e a célebre revista Joaquin (1946-1948), produzida e editada por Dalton Trevisan, conseguiram sobreviver por mais que dois anos.

Capa do mês de setembro do Rascunho.

Revista O Cenáculo

Foi criada em 1895 por quatro escritores proeminentes da época, entre eles, Júlio Perneta (1869-1921), Dario Velloso (1869-1937), Silveira Neto (1872-1942) e Antônio Braga. Com periodicidade mensal, foi a principal revista do movimento simbolista e teve grande contribuição na divulgação da literatura no Paraná. Circulou nacionalmente até 1897.

 

Revista Joaquim

Em abril de 1946, Dalton Trevisan lança em Curitiba a revista Joaquim, “em homenagem a todos os Joaquins do Brasil”. A revista valorizava a temática social e abordava diferentes manifestações artísticas, da literatura as artes plásticas. Também teve um importante papel em divulgar os críticos e artistas locais em âmbito nacional. A revista durou 21 edições, até dezembro de 1948.

A verba arrecadada com a venda de assinaturas e a cota publicitária, garante as despesas básicas de envio e impressão da próxima edição. Pouco sobra para outros investimentos, quanto mais para pagar aos colaboradores. Por isso, Pereira destaca que a força motriz do Rascunho, além da sua teimosia, são os profissionais que abrem mão do ressarcimento monetário, para manter o jornal em funcionamento.

Com um corpo bastante consistente, hoje são cerca de 50 profissionais, entre jornalistas, escritores e acadêmicos, que colaboram mensalmente. “Todo mês aparece mais gente querendo publicar no Rascunho. Como não há espaço para todo mundo, nós fazemos um rodizio com os colaboradores entre uma e outra edição”, explica Pereira.

A exceção são os 20 colunistas, que tem espaço fixo no jornal. Entre eles se destacam grandes nomes na crítica literária e cultural brasileira, como José Castello, Affonso Romano de Sant’anna, e Fernando Monteiro. Pereira também recebe diariamente uma grande quantidade de textos de ficção, de escritores ou aspirantes a escritores. Tudo passa por uma triagem, com base em rígidas questões editorias, tudo para manter a seriedade e qualidade do jornal.

Rogério Pereira além de editor do Rascunho é escritor e jornalista. Foto: Guilherme Pupo.

Processo de produção

Para chegar à versão final do periódico a rotina de trabalho é intensa. São trocados centenas de e-mails e telefonemas, tudo para garantir que a cada dia 20 do mês um maço gordinho, transbordando literatura chegue na casa dos assinantes, seja no Brasil ou no estrangeiro.

Apesar da estrutura bastante profissional, a equipe por trás do Rascunho é pequena. Pereira é responsável por todo o “pensamento” em torno de cada edição, das assinaturas e da parte financeira. Conta ainda com a ajuda da esposa, Lívia Costa, que administra as redes sociais, Facebook, Twitter e Instagram, e com a ajuda do sobrinho Vinícius Roger Pereira, que atualiza o site e emite boletos quando Pereira está muito atarefado.

Quase em sua totalidade, o conteúdo é produzido pelos colaboradores, com exceção dos textos do próprio Rogério Pereira. Porém, nem de longe esse é um alívio para o editor, que acompanha toda a produção, desde a pauta até a edição final.

Pereira brinca que dentro do Rascunho a liberdade é vigiada e a democracia é relativa. Para garantir a imparcialidade e uma maior qualidade do conteúdo, os colaboradores não escrevem sobre os livros que querem. Cada um recebe uma lista com cerca de 500 obras, já selecionadas pelo editor, na qual o colaborador vai escolher uma quantidade X de livros. Depois de feitas todas as escolhas, Pereira define quem vai ler o quê, dentro das preferências indicadas.

Por e-mail também chegam diversas sugestões de pauta. “Quando nos interessa, eu converso com o colaborador e a gente chega num acordo para a publicação. Mas tem gente que manda o texto direto e eu me dou o direito de recusar, porque você não sabe qual o interesse daquela pessoa em publicar o texto”, conta.

Hoje também integra a equipe um designer, Alexandre Luís De Mari, responsável pela diagramação do jornal e mais recentemente publicitário Sandro Retondario, responsável pela Campanha de Financiamento Coletivo, encerrada em nove de outubro desse ano na plataforma do Catarse, que tinha o objetivo de arrecadar 80 mil reais.

Com esse dinheiro. Pereira espera poder reestruturar a parte comercial, quitar algumas dívidas, aumentar o número de páginas para 48 novamente e melhorar o site. Também, uma das ideias da equipe é fechar a plataforma online somente para assinantes, cobrando uma taxa simbólica, como o Netflix e Spotify. “Por enquanto essa ideia está só no papel, porque aí nós teríamos que produzir conteúdo exclusivo para o site, com uma maior atualização. Quem sabe até contratar um estagiário. “

A campanha foi encerrada no dia nove de outubro e contou com um total de 800 apoiadores. Com a meta cumprida, superada em 849 reais, espera-se em breve novas mudanças no Rascunho.

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