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Alvaro Posselt encontra na simplicidade do poema japonês a natureza pulsando em versos

Para o escritor, o haicai é a poesia do futuro.

Numa ruazinha sem saída no meio do bairro Pilarzinho, a menina pintada no muro dá as boas-vindas à casa do poeta Alvaro Posselt, 45 anos. A cada duas semanas, sua telinha ganha uma poesia nova, dos mais variados escritores. Essa pintura é só mais uma das manifestações artísticas que integram a casa do artista, na qual ele pretende transformar em um espaço cultural e de encontro de artistas.

De aparência tranquila e fala mansa – nada tem a ver com os forrozeiros Falamansa, a não ser pelo chapeuzinho. Pela segunda vez me recebeu de braços abertos em sua casa, sem nenhuma afetação. A simplicidade herdou da família humilde. O pai morreu quando tinha nove anos e mãe teve que terminar de criar os três filhos sozinha.

O incentivo à leitura chegou só na adolescência. “Nunca tive a experiência de ter a tia, mãe ou avó lendo pra mim ”. Foi o amigo, Gilmar Marcondes, que o arrastou para dentro da Biblioteca e passou a recomendar leituras. Nessa fase dos 16 anos, leu muita poesia e foi quando fez seus primeiros rascunhos.

Não tinha ainda o desejo de ser um escritor. “Escrevia como uma forma de expressar os sentimentos. Não era algo para mostrar aos outros”, revela o poeta que se inspirava nas paixões e descobertas da juventude. Só a partir de 2000 que o escritor paranaense passaria a ser mais atuante.

Mas foi em 2003, por meio de uma oficina de poesia na Biblioteca Pública do Paraná (BPP), que Posselt abraçou o haicai, poema de três linhas de origem japonesa. Nessa expressão literária se identificou. “Sou de falar pouco e direto”. Um ano depois começou a cursar Letras na Universidade Tuiuti do Paraná (UTP). Aproveitou a monografia para estudar as particularidades do haicai, que é muito mais complexo do que aparenta em sua economicidade.

Posselt explica ao menos dois estilos do poema. No tradicional são usadas 17 sílabas poéticas, cinco na primeira linha, sete na segunda e mais cinco na última, divididas em duas partes. Além disso, esse modelo sempre faz referência a natureza, por isso deve conter sempre uma característica de uma estação. Por meio da contemplação e olhar atento, o escritor caça haicais nos jardins, buscando fugir do óbvio. Ao invés de simplesmente falar em calor para o verão, escreve sobre os vagalumes que só acendem nessa estação.

Outro estilo é o Guilhermino, desenvolvido pelo poeta Guilherme de Almeida (1890-1969), que além da métrica impõe a rima. O primeiro verso tem que rimar com o terceiro e, no segundo verso a segunda sílaba tem que rimar com a sétima. “Não é de primeira que se acerta. É preciso escrever para exercitar a técnica. ”

Essa proximidade com a natureza, seja fauna ou flora, foi mais um atrativo para o autor, que no meio da entrevista faz uma pausa para chamar minha atenção para o canto do sabiá. Escolheu especialmente duas poltronas no jardim para realizar nossa conversa, “em meio ao verde para sentir a brisa”.

Em 2008 teve também o incentivo de uma personalidade inesperada. Descobriu nesse ano o blog da poeta Alice Ruiz, ex-mulher de Paulo Leminski, onde convidava as pessoas a postarem seus poemas para comentá-los depois. Logo na segunda postagem, Posselt lê o seguinte comentário “Cadê o livro?!”. “O apoio de Alice me impulsionou muito a continuar. ”

Quatro anos depois lançou o primeiro livro e, desde então, é um por ano. Todos de haicai, só neste ano ainda não decidiu se irá publicar algum, pois não encontra o mercado muito propício. Também, a maior parte de seus livros foram publicados de forma independente, o que faz com que ele tenha várias caixas com exemplares ainda para vender.

Nessa tarefa autoimposta de vender e divulgar o seu trabalho, revela um talento para o marketing. No melhor estilo marqueteiro, participa a quatro anos de feiras de livros, faz parcerias com sorveterias e cafés e talvez em breve com uma fábrica de chocolates, revela o autor. Realiza também trabalho voluntário em escolas, onde aproveita para oferecer as obras a um preço mais acessível.

E é nas escolas, onde faz oficinas e palestras, principalmente com crianças menores ainda na fase de alfabetização, que Posselt encontra seu público preferido. Mais atrativo que um romance nesta fase de aprendizagem, a atenção e mente aberta dos pequenos é terreno fértil para poesia do autor. Apesar disso, a concorrência é braba, pois compete com Youtubers e escritores da mídia que são a moda do momento.

Mesmo com as dificuldades é de opinião que o haicai sai na frente dos outros estilos literários. Entende que esse é o poema da atualidade e também do futuro, uma vez que circula muito bem nas redes sociais. “Tudo é muito imediato e transitório. Se você postar um textão, ninguém vai ler. Agora se você postar três linhas em uma imagem bacana, é quase inevitável bater o olho e não ler. ”

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