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Luci Collin busca na espontaneidade uma linguagem autentica e sem amarras

Escritora curitibana Luci Collin ganha o 2º lugar na categoria poesia, do Prêmio Jabuti 2017. Foto: Divulgação.

Engraçado pensar que certas pessoas têm dificuldade em calcular uma equação de segundo grau, mas, em compensação, tocam instrumentos com maestria. Ou mesmo tem dificuldade com a tabuada, mas são capazes de rimar palavras, construir versos e escrever uma poesia.  Parece estranho, ou comum dependendo do ponto de vista.

No caso da escritora e poeta Luci Collin, 53 anos, lidar com cálculos e lógica sempre foi um sofrimento. Desde pequena, demonstrava que nasceu para a área de humanas, principalmente a artística. Com 5 anos, já sabia ler, e nessa tenra idade encontrou o primeiro amor: a escrita. “Me fascinava a possibilidade de registrar histórias. Desde então me apaixonei pelos livros”, afirma.

Aos 7, começou a se dedicar ao seu outro amor, a música. Esse relacionamento a três funcionou tão bem que Luci se formou em Piano e Percussão Clássica, na Escola de Música e Belas Artes do Paraná e em Letras (português/inglês) na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde atualmente dá aulas de Literatura Inglesa.

Mas, apesar do amor pela música, foi na literatura que a curitibana se destacou. No início da adolescência começou a escrever os primeiros poemas ainda um tanto precários. Nesse período, já era evidente a sua preocupação com a linguagem. Pesquisava técnicas e formatos para aprimorar suas obras. Nesse mesmo período, guardava um segredo obscuro: “Gostava de declamar poetas parnasianos e modernistas, mas só pra mim. Os colegas não viam muita graça nisso”, conta.

Seus primeiros textos publicados foram os poemas do livro “Estarrecer” (1984). Enquanto que eu, aos 17 anos, só pensava em passar no vestibular, Luci terminava de escrever seu primeiro livro, que levou mais dois anos para ser publicado.

Em todo esse processo, foi na pessoa de amigos e escritores da época que Luci procurou conselhos. Entre eles, ela cita Helena Kolody, João Manuel Simões, Dias Gomes, João Antônio e Henfil, que pacientemente leram criticamente seus poemas. “Quando publiquei pela primeira vez, tinha já uma noção de quanto ainda precisava aprofundar a minha escrita para poder dizer que havia absorvido os conselhos.”

Autora de 18 livros, dois lançados só neste ano; ficou em 2º lugar no Prêmio Jabuti 2017, na categoria poesia, pelo livro A Palavra Algo (2016). Luci afirma que nunca fez questão de conquistar o sucesso. “Fiz uma opção, desde meu primeiro livro, em manter minha espontaneidade com a escrita. Não me rendi a nenhum esquema publicitário e nem a nenhuma imposição de editores.” Ela enxerga essa liberdade conquistada como uma forma de êxito, muito melhor do que a fama.

A preocupação com a linguagem também foi sempre uma constante em seus trabalhos. Uma marca de seus textos é o cuidado não só com a estética, mas com as palavras. Luci trabalha diversos formatos e recursos, subtraindo vírgulas e letras maiúsculas, dando personalidade incomum as suas obras. Vai da poesia à prosa e desta ao conto.

Sessão de autógrafos no lançamento do último livro de Luci, “A Peça Intocada” (2017). Foto: Giovanna Menezes.

Para Luci, cada formato tem sua peculiaridade e serve para um determinado impulso de dizer algo. Preferência não tem por nenhum. Deixa que as ideias se manifestarem livremente, conforme o vento soprar. Isso está muito ligado ao motivo que a impulsiona a escrever, que é de alguma forma, estar com o outro, dividindo emoções e experiências com os leitores através da sua escrita. “Escrever é algo complexo e trabalhoso, mas que tem uma parte de encontro com o outro que é muito estimulante e, ao mesmo tempo, muito tocante. ”

Talvez um pouco disso venha das inúmeras influências que marcaram sua trajetória. Leitora voraz, foi da fotonovela a Balzac, de Sidney Sheldon a Machado de Assis, de Lygia Fagundes Telles a Homero. Ainda inclui no cardápio literário as partituras musicais de Brahms, Schumann, Stravinsky e clássicos da MPB.

Além de escritora, tradutora e professora, neste ano Luci passou a integrar a Academia Paranaense de Letras. Já havia sido incentivada por amigos a concorrer, mas sentia que ainda não era o momento certo. “Não sei, mas agora achei que era a hora. Me interessa tudo que tenha as letras em seu coração e a APL tem”, justifica.

Luci não pensa em parar de escrever. Atualmente, está finalizando dois projetos. Um livro de poemas e um romance. Além disso, está em meio a um projeto secreto que espera concluir até metade do ano que vem. Para ela, o escritor fundamental em captar e transmitir tudo que é mais essencial em nossa existência. “A Arte – e vale lembrar que um livro é, sim, um “objeto de arte” – tem esse papel de, através do estético, veicular essencialidades e, pelo encantamento, provocar reflexões sobre o que é mais profundo em nossa existência.

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