Categoria entrevista

O jornalista Daniel Zanella fala sobre o que torna o jornal ReveO tão característico

Capa da edição de outubro de 2017. Foto: Reprodução.

O impresso mensal de literatura O RelevO, editado em Curitiba pelo jornalista Daniel Zanella, sobrevive no mercado há mais de sete anos. Lançado em agosto de 2010, o que começou como uma publicação mais voltada para a comunidade local, hoje na sua tem colaboração e distribuição nacional e até mesmo internacional

Além disso, o periódico pode ser acessado pela internet de forma totalmente gratuita pela plataforma do Issuu. Nas 24 páginas se pode encontrar um pouco de tudo. São publicados contos, poesias, ensaios, traduções, ilustrações, entre outros.

O Lombada Literária conversou com o editor Daniel Zanella a respeito de algumas particularidades do jornal.

 

Por que o RelevO deixou de publicar apenas autores locais?

Daniel Zanella: O início do RelevO foi muito marcado pela rede de pessoas que eu conhecia. Então, naturalmente com o jornal crescendo em número de páginas e em distribuição, que hoje circula nacionalmente, a rede de colaboradores foi aumentando. Então é muito mais fácil a gente receber agora um texto de Salvador, por exemplo.

Eu evito dar essa ideia de publicação de autores locais, porque a ideia que eu tenho é a publicação de autores que eu gosto do que eles escrevem. E para mim independem de onde ele é. A gente publicar um autor ou autora só porque é de Curitiba, me parece uma reserva de mercado não muito inteligente. Estaríamos trazendo para o texto discursos que são extraliterários. E também, eu não gosto da ideia de que o jornal tem que publicar os autores locais só porque ele é daqui. O jornal está aqui, mas poderia ser de qualquer outro lugar.

Por quê distribuir o jornal gratuitamente e não o disponibilizar apenas para os assinantes?

D.Z.: A ideia que nós temos em relação a distribuição gratuita é a de expandir o alcance do jornal, fazendo com que ele chegue até o leitor. Eu acho que é um pouco elitista pensar que o jornal só chegaria para quem o paga. Por mais que R$ 50 ao ano, que é o preço da nossa assinatura, não seja um valor muito caro, para muitas pessoas é inviável.

É muito difícil imaginar que alguém assine um periódico, considerando que ele passe fome ou não tenah um lugar para morar. Então, nós entendemos o jornal como uma coisa que chega para qualificar a vida das pessoas que, muitas vezes, encontram no jornal a possibilidade de ter uma leitura maior do mundo e de ter um espaço para a saída dos seus problemas.

O assinante que nós gostamos é aquele que entende que o jornal chega para ele gratuitamente, mas mesmo assim ele opta por assinar o jornal, por entender que esse jornal é importante para a comunidade que ele atua.

Relatório financeiro. Foto: Reprodução da edição de novembro de 2017.

Nas primeiras páginas do RelevO você faz questão de detalhar todos os valores que foram recebidos e gastos. Por que essa preocupação tão grande com a transparência?

D.Z.: Eu desgosto no universo literário do discurso de vitimismo. A ideia de que a cultura é uma coisa precarizada, o que realmente é, e que a literatura seria um meio ainda mais prejudicado. Eu entendo esse discurso, mas ele me cansa quando tudo parece que é feito contra nós, para nos prejudicar.

Dentro dessa ideia de Vamos fugir do vitimismo, eu escolhi fazer um jornal de literatura. E dentro dessa ideia eu acho que a transparência faz com que as pessoas não precisem ouvir eu dizer como é difícil, porque elas veem como é difícil. Ali têm todos os nossos dados. Quanto gastamos, quanto arrecadamos, quem assina, quem é anunciante e, se isso de alguma forma sensibiliza a pessoa, é uma coisa que ela define por ela mesma, não pelo meu discurso.

Nas páginas centrais do RelevO, você reproduz conversas e discussões que você teve com escritores, assinantes, colegas, entre outros. Como fica o seu relacionamento com essas pessoas?

D.Z.: As páginas centrais, são as nossas páginas de humor. Eu entendo que se o jornal é transparente e plural, ele também não pode se levar muito a sério. Quando eu trago essas conversas tensas, com agentes do meio literário, eu acho que isso nos coloca como um pouco do ridículo que somos todos nós. O ridículo de um autor só querer assinar se o texto dele for sair, o ridículo de um editor de um jornal pequeno que também tem que lidar com a parte financeira. As pessoas se levam muito a sério nesse universo literário e eu não entendo por quê?

E dentro dessa questão, eu sempre digo que editar um jornal é você ser portador de uma máquina de fazer inimigos. Porque ninguém fica satisfeito com o que o jornal entrega. Existe sim pessoas solidárias, que são apoiadoras, apenas por um interesse no que o jornal faz ou representa. Mas, geralmente, as pessoas divulgam só aquilo que lhes interessa ou aquilo que reforça uma característica que é boa para elas.

Quando o RelevO começou a tiragem era de mil exemplares, hoje ela quadruplicou. Você já pensou em expandir a equipe do jornal, contratando mais pessoas para auxiliarem eu todo o processo de criação e finalização?

            Olha, essa é uma questão delicada, porque uma das grandes questões que mataram os cadernos culturais e também não aproxima os bons projetos do seu grupo é a impessoalidade. Eu acho que o jornal pode crescer para atingir mais leitores, mas se nesse processo ele acabar afastando a equipe da comunidade, deixa de ser interessante

Eu gostaria que o jornal fosse maior, mas não a ponto de me tornar inacessível. Pois é esse diálogo que faz com que a comunidade conheça o jornal. Mas a cada assinatura que aumenta, aumenta o meu trabalho de logística e sou eu que cuido dessa parte. Então, talvez ter uma pessoa que cuidasse disso, melhorasse a logística do jornal. Mas eu tenho medo que isso me distancie dos assinantes. Isso é algo que eu não consegui resolver ainda.

É possível transformar esse modelo de negócio em algo lucrativo?

D.Z.: A lógica que eu tenho da não lucratividade, é uma lógica interna, que para mim é uma questão ética, que envolve todo o corpo de colaboradores. Se o jornal tem 20 pessoas que colaboram, porque apenas eu ficaria com esse lucro?

Se o jornal tem um superávit de R$ 1 mil, eu prefiro usar esse dinheiro para comprar um computador para o jornal, para aumentar a distribuição, do que ficar com esse valor. Qual sentido tem de o editor ficar com o capital financeiro, sendo que o capital intelectual de todos os colaboradores não é pago. Isso é uma coisa que me incomoda em vários veículos que estão relacionados com a cultura. Eu acho uma picaretagem você ter colaborador não remunerado. Se for para ter colaborador não remunerado, como é o caso do Relevo, que todos sejam não remunerados.

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