Categoria resenha

Hélio Leites traz toda a sua delicadeza de artista plástico para a literatura

Tarja Branca: o Libreto que Faltava (Prosa Nova, 2017) é construído na base e sobre o detalhe. Livro de estreia de Hélio Leites, 66 anos, nele o autor faz jus ao título “significador das insignificâncias”, dado pelo amigo, o escritor e poeta Paulo Leminski (1944-1989). Em menos de uma página, Leites consegue levar o leitor a enxergar a vida com muito mais encanto.

Há nas 74 crônicas reunidos uma delicadeza com a palavra que à primeira vista pode passar despercebida. Mas, conforme os termos se entrelaçam, formam frases e parágrafos, quando menos se espera aquela narrativa toma corpo e toca algo dentro de nós. Seja ao descrever o canto de um passarinho ou um malabarista no semáforo, o cuidado com a palavra é o mesmo.

De forma leve e sem complicações, os textos não têm formato. Alguns poucos extrapolam uma página, outros tantos não chegam a sua metade. Frases curtíssimas dividem espaço com outras que duram um parágrafo inteiro. Nessa brincadeira, trocadilhos são formados e frases feitas são desconstruídas.

“Não se pode corar sem culpa, a vergonha é o sangue nos denunciando à flor da pele. ”  – página 90

Cada conto tem uma dinâmica própria, ou melhor dizendo, uma vida própria, que vai muito além da página impressa. Nem mesmo a divisão em capítulos consegue segurá-los. Separados em quatro grupos – “Sobre a arte e o ofício da escrita”, “Lembranças e memórias”, “Religiosidade, ética e vida” e “Encantos da vida e natureza” –, por mais que cada capítulo traga um tema de forma mais destacada, há entre todos os textos uma linha invisível que liga uns aos outros.

A obra na escolha de temas e personagens não apresenta muita diversidade. Referências à natureza, na figura de uma árvore ou pássaro, assim como a Deus e a São Francisco são corriqueiros. Mas longe de tornar a leitura enfadonha, Leites consegue traduzir cada situação de forma simples, mas não menos surpreendente.

Obra de estréia de Hélio Leites na crônica.

Livro: Tarja Branca: o Libreto que Faltava.

Autor: Hélio Leites.

Número de Páginas: 112.

Editora: Prosa Nova.

Preço: R$25.00.

“Mal pego uma pedra reciclada em martelo e o paradigma já vem abanando o rabinho, pedindo para ir passear e não se esquecer de levar a sacolinha, senão vai ser vaiada outra vez por não recolher o produto da performance. ” – página 86

O escritor foge da mera descrição. Mais do que detalhes, Leites desenha com palavras no imaginário do leitor. Enriquece a narrativa com metáforas e analogias inesperadas que coroam situações corriqueira e que nem se nota. E, em meio a tudo isso, ainda há espaço para críticas sociais, para falar da reciclagem, e fazer homenagens aos amigos, como na página 65 em que é reproduzido um pequeno tributo de Leites a poeta paranaense Helena Kolody, que estaria completando 100 anos em 2012.

A expressão Tarja Branca, criada pelo autor como uma forma de ironia aos remédios tarja preta, foi usada em um depoimento no documentário Tarja Branca – A Revolução Que Faltava, de Cacau Rhoden, sobre a importância do brincar. O livro faz um resgate a expressão e é tido como um remédio do futuro, mas que deveria fazer parte do presente.

“A burocracia manda escrever no vidro traseiro do ônibus para não dar esmolas, porque vicia, o que dou não é esmola, é cachê, pago-lhes um cachezinho de moedas. ” – página 67

As 74 crônicas que integram a obra, já tratavam há anos alguns amigos seletos do escritor. Pois antes de virarem livro, eram enviadas pelo próprio Leites por e-mail. Agora o remédio se torna popular. As palavras contidas nas 112 páginas não só curam, mas fazem o doente voltar a ser criança, a refletir sobre a exuberância da vida e a prestar a atenção aos detalhes.

O livro pode ser comprado no site da editora Prosa Nova. Também está disponível em formato PDF, MOBI e ePUB para baixar gratuitamente. Além disso, Leites também narrou o livro em formato áudiolivro.

Hélio Leites dirige uma banca da Feira do Largo da Ordem. Foto: Divulgação/Luiz Andrioli.

Hélio Leites

Nasceu em 21 de janeiro de 1951 na cidade da Lapa, Paraná. Formado em Economia, trabalhou 25 anos como bancário. Na década de 1970 começava a dar os primeiros passos como artista plástico e performer.

É uma figura conhecida na capital paranaense. Há décadas mantém uma barraca na Feira do Largo da Ordem, no centro da cidade, onde mantém um espaço que é mais do que um balcão para expor suas criações: trata-se de um pequeno palco de onde é possível ouvir histórias e fábulas a respeito das pequenas peças que produz. Hélio dedica-se a trabalhar com pequenas criações, muitas feitas com palitos de fósforo, tampinhas de garrafa, embalagens vazias reutilizadas e os clássicos botões, uma marca registrada da sua obra.

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