Categoria resenha

Com irreverência, o último lançamento da autora vem permeado de sutilezas e humor

Luci Collin reinventa a linguagem em seus contos. Foto: Divulgação.

Livro: A Peça Intocada.

Autor: Luci Collin.

Número de Páginas: 112.

Editora: Arte & Letra.

Preço: R$37,80.

Talento nato ou aprendido e aperfeiçoado com o tempo? No fim das contas não importa, o resultado é o mesmo. Na ponta do lápis da escritora curitibana Luci Collin, 53 anos, a linguagem vira argila e se molda a seu bel-prazer. É o que vemos em A Peça Intocada (Arte & Letra, 2017), último lançamento da autora.

Logo no primeiro conto “Matiz das Armadilhas, vemos a linguagem ir de 8 a 80 em poucas páginas. O dia da semana é o mesmo, um domingo. Mas os personagens são de universos opostos. De um “tapa na bisteca” em uma quebrada com “cheirão de mijo”, entre um “esquisitão” e uma “piriguete” presenciada por Aílson, vamos para a casa do dr. Carlos Luís, médico apaixonado pela fotografia, que apresenta as etapas do processo de revelação com todas as funcionalidades do “metol” e da “reação do óxido-redução”.

A estranheza do encontro da fala popular, cheia de gírias, palavrões e erros ortográficos, com uma escrita mais formal, poética e até mesmo técnica, perde importância em meio as situações absurdas e desencontradas, nas quais vemos toda a versatilidade de Luci. Não é à toa que o conto é dedicado a Lewis Carroll, criador da pequena Alice. Pois o texto é uma subversão do mundo das maravilhas, na figura de Aílson, que vai ao submundo da periferia, onde as loucuras são alucinações provocadas pelas drogas e bebidas.

Nos 15 contos do livro somos apresentados a temas variados. A leitura é fácil e ágil, o que não dispensa a atenção do leitor. A falta de pontos, vírgulas e o entroncamento do texto, por meio da repetição das palavras, dão uma dinâmica particular a cada uma das narrativas. Não é uma leitura para desatentos, pois os detalhes e nuances da escrita tornam-se tão importantes quanto as próprias histórias.

De forma arrojada e muito particular, estilos e formatos se misturam. Dos diálogos clássicos a cartas, de listas a recortes de jornais fictícios, cabendo até redação escolar. A cada página virada uma surpresa, que prende a atenção do leitor da primeira à última página.

Com bom humor e uma dose de sarcasmo, Luci traz o retrato de Curitiba, nos maneirismos de quem nela vive, explorando o lado “gringo” da capital, no conto “Coré Etuba: Tati Kéva!”. Tudo fica mais chique com um pouco de inglês, então a praça vira “Garibaldi’s Square”, junto com o “Flower’s Clock”. Ganhamos direito até a “Hospital Internacional do Cajurú”.

Sua irreverência se destaca em “Jogando Cartas com T.S. Eliot, um famoso poeta americano. Morto desde 1965, Luci narra um encontro hipotético com o poeta, a pedido da prefeita da cidade. “Só lembraram de mim porque a intérprete fora cometida por forte cãibra nas cordas vocais”, comentários sutis, mas que trazem personalidade ao texto.

Essas sutilezas também aparecem em “Rastros e Homens”, no qual um desejo irrefreável de falar de cobras é tema para “chamar a atenção”. Ao discorrer sobre as cobras, com informações biológicas e anatômicas dos “reptilia” contidas na Barsa, faz analogias sobre as serpentes escondidas na pele de homem.  Há diversão no descontrole da personagem que não consegue controlar o impulso de discorrer sobre o tema.

Mas é em “Se Deus Quiser e se eu Crescer” que Luci parece trazer a beleza do ato de escrever. De forma singela na figura do pequeno Ricardo, ao escrever o que quer ser quando crescer, escolhe ser escritor. Os motivos são revestidos da sabedoria infantil: O autor “Charles” mentiu que era “Lewis e ninguém riu dele”; leu sobre “uma boneca que falava e um visconde feito de sabugo”. Mentiras e fantasias são levadas a sério, pois servem “pra escapar desse mundo”.

Escritora curitibana Luci Collin ganha o 2º lugar na categoria poesia, do Prêmio Jabuti 2017. Foto: Divulgação.

Luci Collin

Poeta, ficcionista e tradutora, Luci Collin escreve desde os anos 1980. Escreveu para diversos periódicos entre eles o periódico Nicolau, Rascunho e Gazeta do Povo. Participou de antologias nacionais e internacionais e foi escolhida para representar o Projeto Literário na EXPO 2000 em Hanover. Tem 18 obras publicadas, entre contos, poesias e romances. Traduziu autores como Gary Snyder, Gertrude Stein e E. E. Cummings.  Formada em Piano e Percussão Clássica pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná e em Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), tem também doutorado e pós-doutorados pela Universidade de São Paulo. Atualmente leciona literatura na língua inglesa na UFPR.

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