Categoria reportagem

 Com linguagem informal e camaradagem, Booktubers atraem cada vez mais o público para discutir obras literárias 

Yuri Al’Hanati comanda o canal no YouTube Livrada, dedicado a literatura. Foto: Giovanna Menezes.

Não é novidade para ninguém que canais do Youtube sobre games e pegadinhas fazem um sucesso astronômico. Mas poucos imaginariam que discutir literatura nessa ferramenta atrairia tanta gente. Chamados de Booktube (junção de book, livro em inglês, com Youtube), nestes canais pessoas fazem indicações, críticas, resenhas ou simplesmente falam sobre livros. 

Para se ter uma noção, a primeira Booktuber do Brasil foi a paulistana Tatiana Feltrin, que em 2007 lançou o “Tiny Little Things”, o primeiro canal dedicado exclusivamente a literatura. Hoje ela já tem mais de 250 mil inscritos e 24 milhões de visualizações em seus vídeos.  

Isso mostra que há muita gente interessa em ler e que busca outras alternativas além de jornais, blogs e revistas especializadas em literatura. Além disso, esses espaços surgem como uma grande ferramenta de incentivo à leitura e discussão de obras literárias, principalmente no Brasil, onde a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do ano de 2016, apontou que 51% dos brasileiros não leem. 

Mas nem todo mundo que gosta de livros, quer necessariamente parar e se concentrar para ler sobre literatura. Daí vem a vantagem do Youtube, que assim como a televisão, permite que a pessoa assistir a um vídeo enquanto limpa a casa ou faz outra atividade. Além disso, a ferramenta é muito mais informal e permite uma aproximação maior entre o produtor de conteúdo e o público. 

Há cinco anos a jornalista Gisele Eberspächer resolveu criar o canal “Vamos falar sobre os livros?, no qual, de maneira bastante informal e descontraída, ela fala sobre os livros que leu. “Eu sento, ligo a câmera e converso sobre as minhas impressões e o que tem de novo na minha estante. É como se estivesse falando com um amigo em um café.”  

Muito diferente de quando ela colabora para o Rascunho, um dos principais jornais literários do Brasil, editado em Curitiba. Nele, Gisele escreve críticas e resenhas aprofundadas e mais técnicas, que levam muito mais tempo para

serem produzidas do que os vídeos. Para ela, a questão é que cada meio oferece possibilidades diferentes.  “O Booktube não quer roubar o espaço da crítica especializada. Pra mim, cada meio se relaciona com o público de uma forma diferente. E no final um acaba complementando o outro”, afirma. 

Além do público, as editoras também perceberam o potencial desse meio e passaram a investir nesses produtores de conteúdo, formando parcerias e enviando livros. Essa prática não é exclusiva com os Booktubers, pois críticos literários, em geral, costumam receber obras das editoras. 

No entanto, esse comportamento gerou certa polêmica entre os membros do Youtube. Em 2010, teve início o Movimento Valoriza Booktube, que via nesse relacionamento uma atitude de promiscuidade, em que os Booktubers eram pagos com livros para falar bem das obras. 

Para Gisele, apesar dessa união de valorização ser positiva, a visão do movimento era ingênua. Por pertencer à área de comunicação e ter experiência no ramo, Gisele entende que esse relacionamento com as editoras é natural, pois essas empresas não têm capital para financiar monetariamente dezenas de pessoas. E também, como profissional, sente que não é obrigada a falar sobre os livros que recebeu, muito menos falar bem só porque ganhou a obra. “Aí vai de como cada um quer se portar. ” 

O mesmo pensa o também jornalista, Yuri Al’ Hanati, que desde 2010 tem o blog “Livrada“. Em 2014 resolveu apostar no Youtube como uma forma de dar mais visibilidade para o seu trabalho. Com 149 vídeos postados, mais de 15 mil inscritos e cerca de 663 mil visualizações, que só aumentam a cada dia, a aposta no canal “Livrada” vem provando que deu certo. Além do blog e do canal, ele também é parceiro do portal independente de cultura, “A Escotilha“. 

O que chamou a atenção de Hanati na plataforma é a comunidade que cresce em torno desses canais. “A gente acompanha os comentários e vê que têm várias pessoas que comentam e participam desde sempre. Isso é muito bacana, porque aproxima muito a gente do público”, conta Hanati que, em seu último aniversário gravou um vídeo de Book Haul, no qual vários dos livros recebidos foram presentes dos usuários.  

Holofotes  

Além da proximidade, o Youtube gera uma exposição muito maior do que a de um crítico que escreve para um jornal. No caso específico dos canais literários a incidência de haters é menor, mas sempre tem alguém que vem reclamar ou discutir. Gisele no início passou por algumas situações assim, após falar que não havia gostado de um livro. Hoje, no geral, ela usa o pouco tempo para gravar vídeos sobre os livros que gostou de ler, mas se algo não a agradou, ela faz questão de deixar claro que essa é uma opinião particular. Tudo para manter os ânimos equilibrados. “Às vezes surge alguém do além e começa a te xingar, sem nem mesmo te conhecer. No começo isso me afetava um pouco, mas com o tempo você vai aprendendo a lidar com isso”, explica.  

O outro lado dessa exposição é a fama. No caso de Gisele e Hanati o estrelado ainda é pequeno, mas mesmo assim já são reconhecidos em alguns meios. Hanati sempre relutou em se expor e quando migrou para o Youtube não imaginava a repercussão que podia ter. “Meu pensamento foi igual de ator pornô estreante. “Ninguém vai ver isso” ou aquela coisa de que “Tem tanta gente na internet que ninguém vai ver isso””, brinca.  

Mas com o tempo, apesar de não gostar muito, o reconhecimento veio. Hanati conta que a primeira vez que foi abordado por um desconhecido foi em um lugar totalmente improvável: um show no Circo Voador, da banda Gangrena Raivosa, no Rio de Janeiro. 

Esse relativo sucesso permite que tanto Gisele como Hanati monetizem seus vídeos. Ou seja, cada vídeo dependendo do número de visualizações passa a render um valor. Em ambos os casos, o rendimento é pequeno, até porque ganhar a vida sendo um Youtuber não é o objetivo de nenhum deles. O canal é um projeto pessoal, com profissional no sentido de mostrar o seu trabalho, não lucrar com ele. É o fazer por gostar, pura e simplesmente.  

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